A Relativização do Discipulado – por Ap. Dr. Thomé Tavares, PhD

(*) Apóstolo Dr. Thomé Eliziário Tavares Filho

RESUMO

Aborda os desafios da obra de discipulado ao redor do mundo, num cenário de multiplicação da iniquidade e de violência na vida urbana, traçando um novo perfil do homem  moderno, tornando-se muito mais egocêntrico e centrado nos interesses materiais. Nessa perspectiva a influência de uma cultura hedonista, afasta o homem dos valores espirituais, reforçada por uma sociedade perdulária, permissiva e que licencia os costumes da ética e da moral evangélica.

Palavras Chaves:

Discipulado. Desafios. Pós-Modernidade.

No Evangelho de Mateus, no capítulo 28, versos 18 e 19, antes de ascender aos céus, Jesus apresentou à sua Igreja o desafio de ir por todo o mundo anunciando o Evangelho e fazendo discípulos,  com a promessa de que o Espírito Santo estará conosco nos outorgando poder e autoridade, superando as adversidades, as barreiras e as forças das trevas com o poder sobrenatural de curar os enfermos, de dar vista aos cegos e de por em liberdade os oprimidos (Lucas 4:18 e 19).

Por influencia dos Apóstolos no Século I, essa ordem do Senhor Jesus foi priorizada pela Igreja, e o Evangelho se espalhou por toda a bacia do Mediterrâneo, conquistando territórios, formando novos discípulos,  e com uma grande colheita de almas, e com a implantação de Igrejas Cristãs no  Oriente Médio, nas regiões da Asia, na Europa e nos países Africanos.

No decorrer da história, com o descobrimento das Américas, com a industrialização, com o avanço da Ciência e da Tecnologia, e com o aparecimento dos grandes centros urbanos, o comportamento humano foi sendo modificado por influencia do êxodo rural,  da globalização,  das mídias informacionais inteligentes e por influência das ideologias políticas e econômicas. Assim, o homem foi se tornando mais frio, mais desapegado dos valores espirituais, mais materialista, mais impessoal, mais centrado nos bens materiais de consumo, mais hedonista, se afastando dos caminhos de Deus.

Infelizmente, essas mudanças fez surgir o homem moderno, mais liberal e que  influenciaram negativamente as atitudes cristãs nas Igrejas. Surge assim a Igreja  tradicional que põe em prática o ensinamento de  uma Teologia cética dos dons espirituais, que sataniza  o movimento pentecostal avivalista. Nesse contexto da Pós-Modernidade, os Líderes dessa geração dão mais ênfase  a um Evangelho histórico, em que a postura Apostólica foi encerrada e se transformou em figura de museus. Nesse comportamento cético,  não há mais milagres, que o sobrenatural se deu tão somente no século I, e o movimento de avivamento ficou engessado.

(*) O autor tem formação de graduaçã o em  Teologia, Filósofia  e  Psicanálise Clínica. É Pós-Graduado com Especialização em Filosofia Clínica e Psicopedagogia. Possui Pós-Graduação Stricto Senso com Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado em Psicologia Social.

Nesse contexto histórico, encontramos hoje milhares e milhares de Igrejas tradicionais antigas e pequenas, que pararam no tempo e no espaço, aprisionadas como que estivessem no antigo Egito, sem vivenciar o mover e a manifestação do poder e da glória de Deus. É nessa situação e nessas condições que a obra do discipulado foi relativizado. Os crentes da Pós-Modernidade focalizam suas motivações nas Redes Sociais;  se tornaram hedonistas em suas zonas de conforto; são consumistas e assíduos frequentadores dos shoppings, com o modismo, e transformaram suas paixões clubísticas em religião. Assim, as Igrejas se transformaram em points de  encontros dominicais para grupos de amigos em que os Pastores são serviçais e meros pregadores e dirigentes de cultos, e são soberbos como meros Teólogos, donos do Saber.

Uma das Profecias preditas por Jesus Cristo, nos dá o perfeito entendimento da situação em que se encontra nossas Igrejas contemporâneas com relação ao desafio da obra da  evangelização e do discipulado. No Evangelho de Mateus no capítulo 24 verso 12, Ele profetizou “E por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará”. Evidentemente que vivemos em meio à iniquidade, numa sociedade perdulária, permissiva e pluralista, que licencia os valores éticos e morais comprometidos com as Leis de Deus.

Tanto o Sistema Jurídico, quanto o Sistema Legislativo e Religioso através dos novos conceitos Teológicos advindos do Vaticano relativizam os valores éticos da Igreja, cada vez mais desagregando a Família, aniquilando com os antigos paradigmas atrelados aos preceitos educacionais.

As novas leis co Código Civil permitem o aborto, o uso das  drogas, o casamento de pessoas do mesmo sexo, a comercialização de armas, o genocídio, a esterilização de mulheres e outras iniciativas libertinas, do jeito que o Diabo gosta.

Conforme Jesus predisse, o aumento da iniquidade criou um novo perfil do homem moderno, tornando-o mais liberal; mais impessoal;  mais desapegado dos valores espirituais; mais imediatista na busca insaciável pelo poder, pelo prazer, pelas realizações pessoais. Konrad Lorenz (1968)  em sua obra “A Demolição do Homem”  fala acerca do “desencaminhamento do espírito humano”, focando nesse fenômeno da desumanidade e da despersonificação do homem moderno, mais focado nos prazeres e nos bens materiais.

Em sua obra intitulado “Os oito pecados mortais do homem civilizado”, Konrad Lorenz (1988), pontua os preditores da demolição do homem moderno, classificando pela ordem o Superpovoamento do Planeta, com o estrangulamento total da vida em comunidade em vista do consumismo, das disputas e da poluição sem controle; da devastação do espaço vital, tanto no contexto físico quanto  individual. Nesse sentido, Rollo May  (1988) escrevendo sobre “o Homem à procura de si mesmo”, questiona sobre a perda gradual do senso do self, e se aproxima das concepções de Kurt Lewin sobre a devastação do espaço vital, do ponto de vista psicológico. Nesse texto de Lorenz (1988), o autor classifica como o 3º pecado mortal  a Competição do homem consigo mesmo, levando em conta que a sociedade no avanço da ciência e da tecnologia exige novas demandas na capacitação do homem e em seu aperfeiçoamento à novas realidades do mundo profissional. A morte do calor humano, é o 4º pecado mortal, e nessas condições as pessoas se sentem cada vez mais isoladas e solitárias, mesmo vivendo em meio à grande densidade populacional. O desapego interpessoal tem sido a marca dessa nova sociedade, em que o próximo é o que contigo compete, e de repente pode ser o teu adversário e inimigo. O 5º pecado mortal  citado por Lorenz é a Decadência Genética, levando em conta que o estirão da vida diminuiu para 70 anos, e o que passar disso só resta as comorbidades adquiridas em meio a uma vida miserável e estressante tais como a diabetes, hipertensão, doenças cardíacas e outras de natureza neurofisiológicas. Nesse contexto, as tensões psicossociais tornaram a vida insuportável e com isso caiu profundamente a qualidade de vida nos grandes centros urbanos. O 6º Pecado Mortal pontuado pelo autor é a Ruptura da Tradição, num cenário da quebra dos paradigmas, numa dialética transloucadas em que tudo se modifica, tudo se transforma, tudo perde sua essência e seu valor. Vivemos numa sociedade sem memória. Lorenz ainda cita o 7º Pecado Mortal  em que o mesmo cita a Doutrinação, representado pelo inconsciente coletivo do Carnaval, do Futebol, do mal estar de uma nova cultura, que recrudesce uma nova  doutrinação, de um homem desapegado com os valores da vida; e por último, o 8º Pecado Mortal  são as Armas Nucleares, que representa  a ameaça permanente da aniquilação da Família Humana, em que o mesmo homem que constrói, é o mesmo homem que ameaça uma destruição em massa.

Diante desse cenário de iniquidades, podemos entender o esfriamento da vida espiritual em que o discipulado se tornou em algo superficial, teórico, mecânico, metódico e sem forças motivacionais, em que a maioria dos crentes apresentam as seguintes justificativas:

  1. Não dou conta nem de mim, quanto mais dos outros;
  2. Sou muito ocupado no meu emprego;
  3. Não consigo pensar noutra coisa a não ser na  minha própria sobrevivência física e social;
  4. Tenho filhos para criar e para educar, e não tenho como ter que cuidar de outras pessoas;
  5. Tenho pouco tempo e não cabe mais nada na minha agenda;
  6. Não tenho muito jeito para essas coisas;
  7. Acho tudo isso muito sacal e sem sentido na vida moderna;
  8. Não estou preparado para esse desafio.

Na realidade, a paixão pelas almas, é muito mais do que uma paixão, é uma UNÇÃO, uma obra especifica do Espírito Santo, que capacita a Igreja para o arrebatamento, que será um evento específico para poucos. As coisas tendem a se complicar muito mais, e a tendência é o esfriamento geral das Igrejas e a apostasia  em face da grande tribulação que chega às portas.

A falta do discipulado nas Igrejas compromete o seu crescimento   e transforma os cultos num circo behaviorista mecânico, monótono e sem vida,  e em mecanismo de defesa na medida em que os fiéis comparecem dominicalmente apenas para cumprir uma penitência. De igual modo, a falta do discipulado faz surgir os Pastores Sofistas de Plantão, que se apresentam com eloquência nos discursos, e a Igreja se configura como fonte de emprego firmando o famoso pacto de mediocridade, o Pastor finge que pastoreia e o rebanho finge que é pastoreada.

Sem discipulado a Igreja é um espectro, mantendo-se  descompromissada, sendo apenas uma Instituição Social, sem finalidade espiritual. O Senhor Jesus compara a vida do crente e de Sua  Igreja como uma árvore, podendo ser abençoada ou amaldiçoada, conforme os resultados de sua frutificação. Em Salmos 1:3 se afirma que o Justo é como uma árvore frutífera plantada junto aos ribeiros da água que dá o seu fruto na estação própria e cujas folhagens não caem, e tudo quanto fizer prosperará.

            Revelando-se ao Apóstolo João na Ilha de Patmos, com mensagens às Sete (7) Igrejas da Ásia, no teor das missivas  o Senhor Jesus declara que conhece pessoalmente as obras de suas Igrejas, e assim ficamos sabendo que existe um olhar mensurador daquilo que as Igrejas estão produzindo, e que o vetor dessa análise diz respeito à obra de FRUTIFICAÇÃO E DE COLHEITA. Ele mesmo afirma em Mateus 3:10 que o machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não produz bom fruto, será cortada e lançada ao fogo.

No dia a dia de seu ministério, Jesus sentiu  fome e procurou uma árvore para se alimentar, mas  infelizmente era infrutífera, e imediatamente ele  amaldiçoou a figueira, que logo secou e morreu. Ao analisar coletivamente Suas Igrejas na Ásia, ele se deparou com a Igreja de Laudicéia, que era dúbia, que não se definia, que passava anos e anos sem que houvesse uma viva alma sem se converter, e muito menos que fosse batizada. Na certa seus dirigentes eram administradores de problemas, eram bombeiros para apagar fogos de problemas, mas muito menos Pastores de ovelhas. O registro se deu em Apocalise 3:14-16 “Conheço as tuas obras, que nem és frio e nem quente! Assim porque és morno e não és nem quente e nem frio, vomitar-te-ei da minha boca”.

Certa vez residindo na cidade do Rio de Janeiro, fui convidado por um colega Pastor para conhecer a estrutura física de seu magestoso templo que acabara de ser construído, e me senti extremamente constrangido ao verificar que o Batistério há anos sem celebrar os Batismos estava servindo para depósito.  Percebendo o meu constrangimento, ele se voltou para mim e pediu desculpas, pois na noite anterior tinham celebrado um casamento, e não houve tempo para o zelador retirar os entulhos e as grades de cerveja. Depois descobri que aquele colega era Flamenguista doente, e que fazia muito mais apologia ao seu Clube do coração, e muito menos para a obra de evangelismo e discipulado em sua Igreja, que de certo estava com o machado do Senhor no tronco para ser cortada e ser lançada no fogo. E enquanto isso já deveria ter sido vomitada pelo Senhor Jesus.  Quanto à isso somos radicais, não há como mediar a situação de milhares e milhares de IGREJAS QUE NÃO FRUTIFICAM. Igrejas assim nunca foram Igrejas, e são comparadas como um vale de ossos secos (Ezequiel cap. 37). Assim entendemos o crivo seletivo de Deus, porque muitos são chamados e pouco são os escolhidos.

REFERÊNCIAS

LORENZ, Konrad. Os oito pecados Capitais do homem civilizado. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988.

LORENZ, Konrad. A Demolição do Homem. . São Paulo: Editora Brasiliense, 1982.

MAY, Rollo May. O Homem à procura de si mesmo. Petrópolis, Editora Vozes, 1964.

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